Mostrando postagens com marcador jazz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jazz. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SKIN ALLEY - Além do Jazz-Rock

Há certos sons inesperados que nos contagiam de uma forma inevitável. As melhores canções, os melhores grupos, os melhores álbuns aparecem por acaso, quando não se está procurando. Dizem que o amor é assim, aparece do nada. Sobre isso, não posso opinar. Mas quando aqueles acordes retumbam em meu cérebro, causando aquela sensação de "era isso que eu sempre quis escutar", não só posso como devo expressar minha opinião.

Procurando e remexendo em algumas velharias do fim dos anos 60 fui apresentado a essa banda que, como paixão à primeira vista, me fez perder a cabeça e trair antigos amores: Skin Alley. Esse conjunto desconhecidíssimo faz a cabeça de qualquer amante de jazz, de rock, de progressivo, de literatura, de cinema, de oxigênio...



Formado em 1969, o Skin Alley contava com músicos americanos e britânicos, fato que, por si só, já marcaria a identidade sonora do conjunto. Em 1970 lançam seu debut auto-intitulado, que conta com a excelente "All Alone" o seu maior sucesso comercial (sim, chegou a tocar nas rádios) "Living in Sin".
Em 1970 lançam o disco aqui resenhado, "To Pagham and Beyond", uma obra mais completa, mais ousada, e menos estruturada que o primeiro álbum.

"Big Brother is Watching You" abre o disco e a cabeça de quem a escuta. Para mim, a melhor do álbum e da carreira dos caras. A referência Orwelliana é densa, explícita e até certo ponto sufocante. O Grande Irmão não está presente somente nas letras, mas também no baixo hipnótico e observador de Nick Graham, que também gravou bela melodia do vocal e a gaita na faixa. O arranjo truncado e cinza nos remete visualmente a "Fahrenheit", obra cinematográfica de François Truffaut. Há espaço para todos os intrumentos darem sua deixa, com direito inclusive a barulhos de sirene, insinuando uma perseguição digna de um governo totalitário. Sinceramente, uma canção inesquecível e avassaladora.

A segunda faixa do disco segue direção diversa, enviando o ouvinte diretamente a uma selva, longe da urbanidade opressora. "Take me to Your Leader's Daughter" é uma canção que esbanja esperança, com tons romanceados. Há espaço para uma influência árabe, tornando-a a parte mais rica musicalmente de toda a gravação. A flauta de Bob James guia toda a digressão que se opera em seus 8 minutos. Aliás, o trabalho desse artista merece ser reconhecido, já que além da flauta, comanda todos os saxofones e guitarras do disco!

Mas se você acha que a variedade se esgotaria em apenas duas músicas, engano seu. A regravação do clássico de Graham Bond, "Walking in the Park", é cisuda e encorpada. O saxofone dá mais a tona do que em outras versões. Na verdade é até um pouco engraçado ouvir um R&B tocado de maneira tão sofisticada. Krzysztof Henryk Juskiewicz é o responsável pelos teclados (e também pelos trompetes) e exibe toda sua técnica e versatilidade não somente nessa faixa, mas também em "Queen of Bad Intentions", uma canção mais voltada para o progressivo, com quebras de tempos e intermináveis variações rítmicas.

Mas ritmo mesmo é o que não existe na abertura de "Sweaty Betty". Uma completa insanidade, guiada pelas bateras de Alvin Pope e Tony Knight. Uma maçaroca jazzística alcança os altos falantes, com a bela companhia do vocal de Bob James, já num ritmo mais estruturado. O disco se encerra com "Easy To Lie", que tende para uma linha mais intimista, dialogando inclusive com a música religiosa americana dos anos 60, com direito a estalares de dedos e tudo o mais. Alguns compassos soam mais animadas, como se a oração surtisse efeito em certos momentos.

Vale nota ainda a produção do disco, muito bem realizada, com efeitos interessantes para a época, como fade-in de alguns insrtumentos durante passagens mais truncadas e alterações dinâmicas no efeito estéreo. A sonoridade é característica dos anos 60, tendendo mais para a roupagem européia. Detalhe interessante é que o engenheiro de som é, ninguém mais niguém menos, que Martin Birch, que viria a se tornar o lendário produtor do Iron Maiden.

Enfim, "To Pagham and Beyond" é um disco essencial para quem gosta de música trabalhada, complexa, mas ainda acessível, sem os excessos do krautrock por exemplo.

Paixão à primeira vista? Pode ser que sim, mas pode ser que não, pois dizem que esse sentimento é passageiro. Com o Skin Alley, prepare-se para diversas viagens no tempo, no espaço e na cultura ocidental através de inúmeras audições. É impossível ouvir uma vez só.


1. Big Brother Is Watching You

2. Take Me to Your Leader's Daughter

3. Walking in the Park

4. Queen of Bad Intentions

5. Sweaty Betty

6. Easy to Lie

Link para o álbum















sábado, 2 de agosto de 2008

COLOSSEUM - Filha(o) do Tempo

"Música boa não tem prazo de validade." Essa frase , que ouvi em um peculiar show de coisas que não posto por aqui, define exatamente como me sinto em relação à música. E também sem prazo de validade é o som desta fabulosa banda que apresento, o Colosseum.


Imagine um som orientado pelas mais diversas escalas jazzísticas, andamentos complexos, quebras de tempo e mudanças temáticas. Alie a isso um domínio completo de todo o sentimento "bluesy" britânico sessentista, um ligeiro flerte com a música popular das rádios da época e um virtuosismo inexplicável. Pronto, assim pode-se descrever o quarto, definitivo, clássico e matador álbum da banda, "Daughter of Time".

Se lançado hoje, ao invés de 1970, seria atualíssimo. Interessante como a presença de elementos clássicos e arranjos que remetem ao passado podem tornar um som moderno: tem alguma coisa de errado na música atual, mas isso é papo para outra hora...

Esse super grupo foi formado em 1968, capitaneado pelo talentosíssimo baterista John Hisemann e pelo saxofonista Dick Heckstall-Smith, ex-integrantes da banda de John Mayall. Para o teclado fora recrutado o mago das teclas Dave Greenslade, que depois veio a marcar a história do progressivo com a banda que levava seu nome. Passaram por várias formações e gravaram o também antológico "Valentyne Suite" com James Litherland na guitarra e vocais. Mas a formação definitiva veio com a entrada de Mark Clarke no baixo, Dave "Clem" Clempson (que mais tarde faria parte do Humble Pie, substituindo ninguém mais, ninguém menos, que Peter Frampton) e o monstruoso vocalista Chris Farlowe (que já havia feito sucesso como cantor pop com o hit "Out of Time" em 66, e mais tarde faria parte do Atomic Rooster).

Esse inacreditável time reunido conseguiu imprimir em "Daughter of Time" um trabalho coeso, evolutivo e variado, muitíssimo variado. Não se assuste se você se perder durante as viagens de "Time Lament", pois logo logo você volta. E é esse o grande triunfo do disco: a impressão de que está tudo ligado, que a audição tem um começo, meio e fim, mesmo com o mosaico sonoro das 7 faixas.

"Three Score and Ten, Amen" abre o disco, perdoem-me o trocadilho, de maneira "colossal": uma ambientação épica, com um tema suficientemente sombrio, guiado por uma linha melódica inacreditável do vocalista mais feio do mundo, Chris Farlowe. Não há como negar como sua entrada na banda foi positiva: suas performances são brilhantes, cheias de emoção. Sua voz peculiar surpreende, e nos tira o fôlego em notas que pouco lembram seres humanos. Destaque para sua performance também no cover de Jack Bruce, "Theme for an Imaginary Western".

Contudo, em uma das melhores músicas do disco, "Take me Back to Doomsday", quem canta é o guitarrista, Clem Clempson. Ok, sua voz não é das melhores, e a versão ao vivo dessa música, com Chris apavorando no microfone, comprova o equívoco em gravá-la. No entanto, não se pode duvidar do seu talento nas seis cordas: o homem tem inspiração de sobra, um feeling absurdo, e uma linha jazzística de encher os olhos. Não é à toa que é considerado um dos melhores guitarristas da história.

Falando em jazz, a contribuição máxima desse estilo no disco com certeza vem das proezas de Heckstall-Smith: com sua marcante característica de tocar 2 (dois!) sax ao mesmo tempo (um saxofone um sax-alto), o carequinha conseguiu imprimir características interessantíssimas, relembrando obras de décadas anteriores, e fazendo a ligação direta do estilo de new-orleans ao prog inglês. "Time Lament" e a canção que leva o nome do álbum, "The Daughter of Time", são as grandes responsáveis pela pergunta: progressivo ou jazz rock?

Mais caindo para a primeira opção temos o trabalho de Greenslade. Debulhando seu hammond, o simpático tecladista é responsável por muitas texturas, além de virtuosas passagens solo, como em "Bring Out Your Dead". Já com seu pianão de cauda, demonstra segurança em frases influenciadas pela música clássica e, como não poderia deixar de ser, pelo jazz.

Mark Clarke aparentemente entrou na banda no meio das gravações, ou coisa parecida, pois nem mesmo é o responsável pelo baixo em todas as faixas (Louis Cennamo assina a maioria). Apesar disso, o trabalho nas quatro cordas do disco é elegante, apesar de claramente complementar. Faltou algum capricho na escolha dos timbres, ou talvez maior interesse na hora da mixagem, mas nada que comprometa a obra.

"Downhill and Shadows" fecha o disco no melhor estilo blues, numa levada certeira do chefão Hisemann. Este, em todas canções, mostra porque é melhor que todo mundo na bateria: viradas espetaculares, tempos impossíveis, pegada de elefante, versatilidade... gente, tem muita, mas muita coisa além dos Mike Portnoy da vida na batera... Pra quem não acredita, a faixa bônus do disco, "The Time Machine", é uma aula de bateria do mestre.

Esse magnífico álbum merece ser ouvido com cuidado, muitas vezes. Sempre há alguma coisa nova em alguma faixa que não se havia ouvido anteriormente. Na canção título, por exemplo, sutilmente introduz-se passagens de outras canções, em arranjos diferenciados (com as flautas de Barbara Thompson, esposa de Hisemann) , mas que parecem pertencer ao todo. Conceitual? Pode ser...

Infelizmente, após um álbum ao vivo em 1971, a banda se separou. Curiosamente, em 1975, Hisemann retornou com um tal de Colosseum II (acreditem!), sem os elementos de jazz, tocando um prog-fusion cabulosíssimo. Só para constar, essa segunda encarnação tinha Gary Moore nas guitarras (!) e Don Airey (sim, atual Deep Purple!) nos teclados.

A formação clássica, contudo, retornou aos palcos em 1994, e lançou um DVD e material inédito. Infelizmente, em 2004, Dick Heckstall-Smith faleceu, e seu lugar agora é ocupado pela velha conhecida Barbara Thompson.

Mas como disse no começo do post, "música velha não tem prazo de validade". O tempo passou, a banda mudou, integrantes faleceram, mas "Daughter of Time" está novo, fresquinho, pronto para você ouvir. Se o tempo é eterno, a filha dele, em forma de música, também é...



1. Three Score And Ten, Amen
2. Time Lament
3. Take Me Back To Doomsday
4. The Daughter Of Time
5. Theme For An Imaginary Western
6. Bring Out Your Dead
7. Downhill And Shadows
8. The Time Machine (Bonus) (recorded live at the Royal Albert Hall, july 1970)